O Sacrifício do Filho – Sonia Lyra

Ano de Publicação: 2005

Ano de Publicação: 2005

Este tema faz referências à necessidade de um indivíduo adulto, principalmente em se tratando da mulher, de sacrificar sua própria infantilidade e dependência. Esta relação, mãe-filho, é amplamente desenvolvida por C.G.JUNG, em seu livro Símbolos da Transformação, volume V das obras completas e por E. HARDING em Os mistérios da mulher.

À épocas de crise, tempos que significam necessidade de transformação e crescimento psíquicos, segue-se também uma espécie de necessidade de introversão, regressão, cuidados especiais.

Em vários mitos interpretados por JUNG e por HARDING, a mãe não é una, mas dupla. Isto significa que ela apresenta dois aspectos: um claro e um escuro. Em seu aspecto claro ela é compassiva, protetora, cheia de cuidados maternais ternos e dedicados; supersolícita; em seu aspecto escuro é feroz e terrível, dominadora, intolerante com a dependência infantil do filho e cheia de cobranças.

Sua excessiva bondade e supersolicitude a enfraquecem e enfraquecem o filho, tornando-se o seu lado claro, também escuro, uma vez que isto facilita a manutenção da dependência do filho. Porém, em seu lado escuro, também podemos encontrar clareza e esclarecimentos, quando sendo dominadora e exigente, negativa, obriga o filho, por assim dizer, a emancipar-se dela.

Estamos falando aqui da relação mãe-filho, que pode ser abordada por vários ângulos e em vários sentidos. Por exemplo: numa relação de casal, o filho pode ser projetado no cônjuge e gerar relações de dependência, principalmente se a relação estiver baseada em uma relação erótica de dependência sexual, e de sedução. Se, o que predomina na relação não for ainda uma relação como nos diz Rainer Maria Rilke, de “duas solidões”, então “o filho” ainda não foi “sacrificado”, ou seja, a relação de dependência infantil é ainda o modo de ser predominante da relação.

Uma outra forma de abordar pode ser a relação de mãe-filho, é de fato, onde a relação é entre pais e filhos, e suas relações de dependência. Aqui a dependência, principalmente da mãe e/ou do pai, está no grande temor de que o filho sofra. Em tentativas constantes de “protegê-lo para que não sofra” os pais podem manter o(s) filho(s) aprisionado(s) em relações de dependência infantis, e, com isto, impedem o filho de fazer suas experiências de solidão e de criar “músculos espirituais” ou seja, adquirirem autonomia.

Uma terceira forma de abordagem está em que o “filho externo” é apenas o receptáculo da projeção dos pais, e neste caso, especialmente da mãe, uma vez que está ainda está aprisionada em seus próprios padrões infantis, sendo que ela mesma, ainda quer ser “filha”, com suas infinitas exigências de cuidados infantis. Está identificada com o filho “externo” sendo que ela mesma ainda é “filha”, ou seja, não libertou-se das “imagos parentais”.

Em se tratando do filho concreto ou do filho/cônjuge, a mulher é feliz se “ele” é feliz; está satisfeita se “ele” está satisfeito, não importa que preço esteja “pagando” por isso. Ela não consegue dizer “não” para ele e sequer suspeita de que esta é também a sua dificuldade de dizer “não” para si mesma. Seu “altruísmo” aparente revela em grau mais profundo seu próprio egoísmo inconsciente, não reconhecido como tal e, em sua aparente “bondade” está oculta uma rede de emoções que a mantém escrava, do mesmo modo que mantém o outro escravizado.

Em síntese, a mulher que não tenha ainda “sacrificado o filho” embora possa ter ou não ter filhos, ainda assim levará seu “instinto materno” para dentro dos relacionamentos, juntamente com sua “atitude maternal” a qual revelará seu grau de autonomia. Envolvimentos deste tipo, impedem a mulher de ser “uma em si mesma”, ou seja, tornar-se virgem. O sacrifício do filho, visa a libertação da mulher rumo à sua autonomia e com isto à sua virgindade. Aquilo que é sacrificado realmente, é o desejo de satisfação imediata, a compulsividade sexual, o risco imenso de “perder para sempre” o filho/cônjuge amado, o que requer de uma mulher imensa coragem e capacidade de suportar a dor de vê-lo sofrer, de vê-lo crescer, de ganhar independência e autonomia e de dizer “não”. Os rituais de iniciação, visam não apenas representar, mas fomentar, a passagem para estágios mais elevados de autonomia de mãe e filho. O que entendemos hoje por “rituais de iniciação”? O que entendemos por “iniciação”? É fundamental refletirmos sobre isto, para então, nos apercebermos de que isto possa ou não estar ocorrendo no cotidiano de nossas vidas.

 

Sonia Regina Lyra

CRP 08/0745

Junho de 2005.

 

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